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No fim da linha

Eu prefiro não dormir pra evitar o caótico trânsito pela manhã. Por isso vou pro bar logo que a noite vem e me demoro lá umas boas e longas horas, deleito-me no copo e apoio na borda sem deixar que os pensamentos mais pesados detonem o colarinho. Descobri que não existe aquela história de Harry Hour, toda a euforia cresce e não pode ser controlada com o passar das horas e das lindas garçonetes que eram apenas senhoras de quarenta anos no momento em que chegamos no bar e fizemos nossa checagem radar do local.

O último bar quando fecha de manhã só me lembra que eu não tenho aonde ir.

Já estão recolhendo as mesas e nossa conta chega sem que estivéssemos pedido. Aliás, eu não sei porque estou falando no plural já que é comum vir beber sozinho ou quando não, todo o dinheiro que paga a bagunça sai do meio da minha bunda. E eu vou sem razão, sem noção e sem rumo algum, quase rastejando ao próximo beco onde eu possa comprar algo pra molhar a garganta. Acho que estou viciado, se eu conseguir chegar em casa consciente vou procurar ajuda. Não, droga, eu tenho aula na faculdade daqui a pouco, preciso tomar um banho e tentar me manter em pé já que eu não prego os olhos há uns dois dias. Durante o trajeto naquele transporte barroado, cheio de pessoas com desodorante forte além de aguentar o corno do motorista que não consegue entender que sertanejo não é música coletiva. Depois tenho que engolir aulas precárias sobre assuntos estúpidos ministrados por professores desmotivados. Assim sou eu que vou rasgar as pregas do rabo logo pela manhã. Ainda tenho que aguentar a cidade sendo fissurada pelas obras de extrema urgência. Me poupe dessa delonga de ilusão.

Às vezes preciso ir às pressas pro trabalho, visto minha farda e tento parecer apresentável. No fundo eu só gostaria de vomitar no sapato lustroso do chefe e cagar em cima da papelada que ele mantém em cima da mesa, todas são prenúncios de punição que ele adora distribuir entre aqueles que fazem todo o trabalho com tão poucos recursos e ainda diz sentir orgulho de já ter participado desse  grupo. Acho que deve ter esquecido que o orgulho a gente guarda no meio das pernas para a vida toda. Putos! Todos ao redor, com garras afiadas e pupilas verticais. O que eu quis da vida quando me meti nessa roubada?

Já faz três meses que não vejo o meu pai. Minha mãe poderia passar décadas sem me dirigir uma única ligação, pelo menos eles ainda tem a família pra se confortar. Eu tenho umas belas garrafas vazias e uma conta no vermelho que insiste em se manter viva na esperança de que eu ainda possa ter algum futuro promissor. Meu irmão resolveu não se aliar à mesma operadora que eu pois os amigos dele são de outra e, ora pois, é melhor manter contado com esse bando de desocupado do que passar um final de semana com quem sempre se desprendeu para dar à ele o melhor. Aquilo que eu nunca senti o cheiro. Talvez eu realmente mereça tanta impugnação, de fato.

Odeio você que vive de status, que marca até o banheiro em que peida só porque tem piso português. Eu queria esfregar sua cara nesse ralo até seus ossos saltarem da carne! Tenho nojo em quem faz amizades por dinheiro ou quem tenta sustentar qualquer pose sem ter um único puto no bolso. Faz uns belos anos que eu não vejo o Sol brilhar tão forte contra meus olhos, a ultima vez que isso aconteceu eu era moleque e achava o máximo viver de cachorro-quente de baixo orçamento. Resolvi ganhar um pouco de dinheiro e quando voltei não encontrei mais meus amigos, meus amores e minha própria paixão pela vida. Está tudo embrulhado em plástico bolha na porta do inferno só esperando minha hora de buscar a encomenda e servir o tinhoso por toda a eternidade. Todo o dinheiro que eu consegui hoje gasto em cerveja, cigarros e entorpecentes baratos que maquiam minha instantânea felicidade enquanto eu tento ser normal por um único momento. Já acordei banhado em cerveja fedendo a desprezo, porque eu só tenho que continuar com essa vida de merda. Eu sou um merda!

Tenho uma moto que não funciona. Sei dirigir mas não tenho carteira. No próximo mês serei expulso da casa que eu sempre critiquei mas que agora não quero mais sair. Deixo as coisas pelo caminho por comodidade. Me acostumei com a decência de estar bêbado.

A única companhia que tenho é um cachorro estupido que eu me incumbi de cuidar para ser um pouco mais amável com as pessoas e tudo que eu ganhei foi um macaco branco que não me respeita e me acorda durante as madrugadas com seus latidos estridentes. Ainda tenho que dar comida regularmente mesmo quando eu estou morrendo de fome há varias horas. Toda vez que vou ao banheiro é um concerto dos infernos de latidos e rosnadas nada amigáveis, tudo acompanhando um incomodo cheiro de merda. Ele faz questão de manter sempre a casa cheia de merda não importa a dieta que eu tenha preparado. Não duvido nada que amanhã eu acorde de ressaca com ele lambendo a minha boca e esfregando seu pinto molhado em meu calcanhar. Não duvido nada.

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Relicário

Dias sem dormir direito e lá se vai aquele papo sem fundamento. Sempre achei mais confortável sentar nos degraus de uma escada de concreto, maciça pelo tempo e por aqueles que já pisaram em cima, já esperta em conviver coberta de poeira. Uma conversa marota sem fundamento enquanto o céu está nublado, não consegui tirar os pés de casa e a minha lista está borrada a rubro. Me fale sobre família, sobre os homens que te deixaram esperando e os filhos que teve que criar sozinha. Escuto a máquina de lavar lá fora se silenciar, viro às costas quando vejo uma lágrima preparando queda-livre.

A brisa da tarde passa diferente, antes as camisetas era deixadas sobre a lama da chuva que ocorreu no dia anterior, nossos pés corriam mais que os pensamentos, ninguém corria pra casa bombeado de ansiedade. A vida já correu macia nos contornos de seu rosto moreno. Um dia separou as nossas vidas e assim eu aprendi a fazer cartas de amor, elas ficaram mais dramáticas após o outono.

Das tuas cartas as que eu mais gosto são aquelas de uma palavra só, prefiro teus beijos de vinte minutos. Tentei pichar o teu rosto na parede do meu quarto mas achei injusto porque coloquei quatro folhas de blackout na janela e eu não gosto de incidir luz sobre você, temo que isso cegue o meu bom senso. Esse é o único princípio que me mantém com a canela na areia, tive que me vendar pra esquecer que deixei ervas daninhas crescendo no nosso quintal.

Os telefonemas que recebe são ignorados e os compromissos são firmados por mensagens de texto. Tapei a fresta que sua mão passava devagar na manhã. Seus olhos não são mais profundos e esse azul insosso continua perturbando toda a cidade. Eu sei que a culpa toda é das músicas pop, do veludo macio e roxo que cobre caixas de presentes compradas com vale recebido do amigo oculto da empresa. É uma maça envenenada randômica.

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