Arquivo da categoria: Lovers

Você é mais bonita do que todas as coisas bonitas. É mais bonita que o mar quando ancora no cais do seu coração que, no peito, leva e traz amores distantes, e saudades eternas dos nossos próximos instantes. E, quando a vejo na beira do caos, você se aproxima e, mesmo sem jeito, me pede um cigarro, um isqueiro, um lenço, um beijo e um imenso abraço. Depois, me deixa a ver vazios. Eu embarco no último navio e atraco na grandeza do mundo que nos separa.

 

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Garota Mexicana

Tinha comprado minha passagem, e estava esperando pelo ônibus para
L.A. quando, de relance, vi a mais deliciosa garota mexicana; ela passou bem à
vista, de calças compridas. Estava num dos ônibus que acabara de chegar, entre
suspiros ruidosos do freio a vácuo; os passageiros desciam para um descanso. Os
seios dela apontavam para a frente, retilíneos e indubitáveis; seus quadris
pareciam deliciosos, seu cabelo era longo, lustroso e negro, seus olhos eram duas
coisas azuis imensas, com certa timidez lá dentro; eu daria tudo para estar no
ônibus dela. Uma angústia trespassou meu coração, como acontecia sempre que
via uma garota pela qual estava apaixonado indo na direção oposta, neste mundo
grande demais. Os alto-falantes chamaram os passageiros para L.A. Apanhei
minha sacola e embarquei, e quem estava sentada lá, sozinha, senão a garota
mexicana? Sentei-me justamente do lado oposto do corredor, e comecei
imediatamente a maquinar um plano. Eu estava tão solitário, tão cansado, tão
sobressaltado, tão triste, tão alquebrado, tão arrasado, que consegui reunir
coragem, a coragem necessária para abordar uma garota desconhecida, e agir.
Ainda assim, passei cinco minutos comprimindo minhas coxas na escuridão,
enquanto o ônibus rodava pela estrada.

Você tem de fazê-lo, ou morrerá! Seu estúpido idiota, fale com ela! O que
há de errado com você? Já não está cansado de si próprio? E, antes que pudesse
perceber o que estava fazendo, debrucei-me sobre o corredor até ela (que estava
tentando dormir na poltrona) e disse: — Moça, você gostaria de usar minha capa
de chuva como travesseiro?

On The Road (Jack Kerouac), pág. 109

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Lila

“Se você quer agradar essa menina,
Você tem de andar depressa.
Começe por soltar esses braços
e saltar o mais alto que puder.
Vale a pena.
Porque você não conheceu ninguém antes
que tenha penetrado tanto em seus segredos”

Um cão uivando para a lua, pág.18 (Antônio Torres)

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Lolita

Foi logo que eu cruzei a rua com aqueles carros deslizando em meu calcanhar que eu a vi. A primeira coisa que eu reparo em uma mulher são as mãos, em sua delicada maciez e movimentos harmônicos. Bullshit! Eu olho mesmo à procura de alianças e depois me alongo mais nas pernas pra ver se não há nenhuma criança agarrada e chorando. Se ela come algodão doce é um mau sinal pois ela deve estar esperando algum rapazinho voltar do banheiro ou da cabana do palhaço, adultos não apreciam mais essa nuvem colorida de ilusão.

A única coisa que sacudia em suas mãos era sua garrafa de água mineral: grande, cilíndrica e molhada. Adoro essas garotas saudáveis de hoje em dia desfilando em shorts de lycra, dessas de mentes tão vazias e que só vão na academia pra tomar um banho de sol no trajeto. O velho tarado dizia que as mulheres que agradam os homens são aquelas que se comportam como princesas na rua e como putas na cama. Não, realmente não acho que foi o Bukowski quem disse isso mas certamente alguém já deve ter atribuído a frase à ele.

Meus pensamentos fugiram da realidade e coloquei o lado B pra tocar.

Mas ela era diferente com seus cabelos longos e castanhos até onde a blusa termina (e foi nesse palmo de corpo que eu torci para não encontrar uma tatuagem de henna). Prefiro que me surpreenda com coisas valiosas, jamais quis entrar na sua vida e saber que seu passado foi destruir jovens corações gratuitamente. Seu corpo todo torneado tornava minha saliva amarga pelo trabalho que aquilo tudo iria ser mas ainda assim foi prazerosa a expectativa que floresceu em meus fios e dilatou minha tímida pupila no calor da tarde.

Assim que passou por mim, torceu o pescoço de maneira estratégica e me encarou com gigantes olhos verdes; bocas em tom natural. Subiu a escada numa frequência da passos quase religiosa e me fez morder os lábios, cerrar os olhos e respirar. Só me restou olhar em volta pra evitar qualquer indício de minha parte – o relógio em minha cabeça já estava martelando. Eu só preciso de uma surpresa boa e que meus pés se distanciem do chão. Um sorriso de canto e a mesma quebrada no pescoço.

E subi.

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Vulnerável

Os passos calmos do fim da tarde acompanhavam o pôr-do-sol entre os prédios do centro da cidade, cada chute levantava uma cortina de poeira cinzenta e abria um clareira por entre as britas da pista de atletismo. Esse era o horário em que todos os alunos já haviam vestido seus uniformes e partido para longe dali, tudo que parecia ainda presente eram os ecos imagináveis dos gritos felizes de horas mais cedo. Agora era tudo silêncio envolto em cores neutras.

Preferia caminhar até o limite e subir no degrau mais alto. Podia me apoiar na parede branca que se soltava e pensar durante horas, mas eu pedia mesmo era por uma tarde inteira de ideias com você, a cabeça repousada em pernas relaxadas e os dedos percorrendo fios dourados – os mesmos em que eu adorava me esconder pra te fazer sorrir. Cada rastro de nuvem era observado e todo o anil do céu era refletido em nossos olhos, isso fez de nós acanhados jovens de orelhas e mãos robustas.  Se tranco a respiração ainda consigo dimensionar a exata cintura que eu carreguei tantos dias, tão apalpável quanto as camisas de flanela que tecemos com sinceridade. Nossas relações são colecionadas com mais intensidades quando elas mais nos fazem falta – é o milagre da distância entre as estrelas.

[…]

Quando me lembro daquele momento é fácil ver meu rosto encostado no ombro e, neste lugar, a camiseta umedecida colada à pele. Meu papel foi te mostrar os calos que carrego nas mãos mas durante aquela vã brevidade eu só queria extravasar por dez minutos ao seu lado. É a incrível contradição humana. Somente você possuía a dignidade de me ver na forma mais vulnerável sem que isso fosse constrangedor para mim. Sentia seu afago tímido e suave, ouvia suas poucas palavras enquanto tua língua dançava em um labirinto sinuoso à procura do melhor consolo. Não era preciso nem que eu chorasse lamentando a perda da pessoa mais influente que eu já conheci, eu só queria que o dourado do seu perfume destilasse toda a tristeza da minha vida. Seu silêncio era de todo suficiente como tantas tardes ociosas e aqueles dias sortidos de ternura.

Acostumamos a ficar tão submersos em nossa realidade que não detectamos o acaso se aproximar na ponta dos pés. Me esqueci de contar os corredores que dobramos em falso, os banheiros inapropriados. Ah, os puxões de orelha! Era tudo uma travessa e jovial gargalhada que não queria se calar, que sorria espantada pela indiferença do tédio e pela teimosa frequência dos ponteiros. Por fim, ele acabou por nos dar uma rasteira injusta e quando caí todos os cílios ficaram colados.

Levantei cego.

Não podia mais ver as cores rompendo minha visão. Desaprendi a falar, minha boca tornou-se imóvel. O mais confuso é que eu ainda tenho a clara percepção dos seus dedos entre os meus e do sorriso que não é meu, mesmo assim ele faz minha alegria. Ainda dá pra sentir calor depois de anos no deserto sentindo a mesma brisa gelada que balançava aquelas árvores de tantas tardes nubladas.

RIP AA 23/12/04

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Tulipas

Eu lembro que começamos juntos. Estava tímido por tê-la encontrado esperta demais e isso me fazia olhar de canto. Teu objeto sempre produzia sombra, você parecia gostar e confiante corria em direção ao sol e formava sobra em nós.

De todas as garotas meigas você tinha os lábios mais suaves e condensou mistério em suas calças jeans justas apertadas com fones de ouvidos. Costumava jogar a franja de lado para esconder os olhos do sol mas não se importava que estes raios fizessem do tom da tua pele cópia legítima daquela que reflete em meus lençóis. Por isso me justifico dobrando o pescoço, sem pretensão alguma.

Seu olhar manteve-se impenetrável – angular e alinhado. Me fazia mortal. Talvez por isso nunca pude encará-lo e aceitar meus vinte anos de penitência. Por todo esse tempo eu poderia afastar seus cabelos, desalinhar sua leve maquiagem depois de uma noite intensa e te dar vodka pra matar a sede. Eu posso te dar o mundo se você quiser despir sua venda de combate.

Na sua alegria veste preto; Por que manter garrafas de leite ofuscando a lua? Sinto pelas flores que não deixei e pelo pôr-do-sol que viu sozinha.

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Wilco

Lá vem ela em passos largos, movimentando seu rosto e observando como se nada pudesse preocupá-la. Seus cabelos longos estão à vontade do vento e mechas abrem espaço para um olhar penetrante e inevitavelmente fatal. Ela tem o dom de se esquivar no tempo nos fazendo sentir uma ausência sofrida, gosta de voltar sem fazer barulho mas o tremor que ela não vê nos tira o sono, o cansaço, a vergonha.
Não dá pra acreditar nos milhões de segredos que se escondem debaixo de um short tão curto. Nem o menor esforço que ela faz para preservá-los. Ela só não quer se aborrecer e tu tem que se agarrar ao volante com firmeza e deduzir que está tudo sob seu controle.
Isso faz meus ombros parecerem tão pesados…
Ela pula na piscina e volta pra tocar seu violão. Não precisa se preocupar – seu andar já nos mata de amor! Dá pra fazer uma música com cada palmo de seu corpo. Agora, jamais faça isso se não tiver disposto a surpreendê-la: estará condenado a um platonismo eterno.
Eu demorei tanto pra acreditar que era a garota da porta ao lado.