Arquivo da categoria: Cotidiano

Vou ao quarto auxiliar e vejo Julho despontando lá na frente. Assim mesmo, com letra maiúscula, porque eu sempre soube que um mês é tempo demais e toda a expectativa que colocamos em um novo ciclo tem seu propósito. Ainda é de madrugada por isso eu não tenho a real impressão de que o mês já começou. Tudo parece mais estranho ainda quando isso acontece em plena segunda-feira.

Insônia.

Peguei minha máquina desajustada e fui pra janela, fiz do cômodo uma câmara escura, pisquei as luzes, tirei o flash, avancei o recuei o zoom até chegar um ponto em que o que não agradava estava fora de foco e o que era bonito ou estranhamente chamativo poderia ser registrado ou sentido, caso eu queira desligar o aparelho e ficar ali parado, só observando. Todas as madrugadas sozinhas ficam mais atrativas quando chove – essas gotas fazem falta no livro da melancolia autista. Parei uns instante, vi sinais luminosos em outra janela que estavam imperceptíveis a olho nu. Tentei de novo e não tive êxito. Dei um sorriso e me senti tão bizarro e tão contente que vou me esforçar pra encontrar a pessoa que clicou essa minha única dose de sinceridade noturna que havia se esvaído lá no passado – que se escorreu no vão – quando tudo ainda era atrito e todos as cores estavam ao alcance dos dedos, prontos para riscar fora aquilo que permaneceu intacto.

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Adios

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Karma Police

Hoje um capô passou menos de três metros de minha cabeça e eu não vi. Amigos sangraram e desesperaram por assuntos menores mas não me importei. Meu fluxo ignorante e impaciente só tinha um foco o dia todo.
Toda essa tarde se arrastou na minha cama sem que eu tivesse forças pra me levantar, não queria, era mais afável o edredom amenizando a dor do que a dúvida.
Hoje eu nasci de novo, segundo populares. Pensei no branco que se fez perante os olhos e minha mente. Pensei no único foco evidente. Em um instante todo as fotos e as folhas de calendário perdem todo o sentido, todo aquele monte de dinheiro debaixo do colchão só servirá pra que dar um sepultamento digno; pode ser que nem apareça alguém pra carregar o seu caixão. Enquanto todo a sua vida passa diante de seus olhos, há um menino fazendo gol, uma adolescente gritando de orgasmo e um velho chorando as decepções do filho caçula. Não queira perder os dias que lhe restam evitando o sol dentro do quarto, não deseje isso. Aproveite pra sentir sabor no sangue porque nada vai restar quando os dois mundos – e você no meio disso – se chocarem.

 

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No fim da linha

Eu prefiro não dormir pra evitar o caótico trânsito pela manhã. Por isso vou pro bar logo que a noite vem e me demoro lá umas boas e longas horas, deleito-me no copo e apoio na borda sem deixar que os pensamentos mais pesados detonem o colarinho. Descobri que não existe aquela história de Harry Hour, toda a euforia cresce e não pode ser controlada com o passar das horas e das lindas garçonetes que eram apenas senhoras de quarenta anos no momento em que chegamos no bar e fizemos nossa checagem radar do local.

O último bar quando fecha de manhã só me lembra que eu não tenho aonde ir.

Já estão recolhendo as mesas e nossa conta chega sem que estivéssemos pedido. Aliás, eu não sei porque estou falando no plural já que é comum vir beber sozinho ou quando não, todo o dinheiro que paga a bagunça sai do meio da minha bunda. E eu vou sem razão, sem noção e sem rumo algum, quase rastejando ao próximo beco onde eu possa comprar algo pra molhar a garganta. Acho que estou viciado, se eu conseguir chegar em casa consciente vou procurar ajuda. Não, droga, eu tenho aula na faculdade daqui a pouco, preciso tomar um banho e tentar me manter em pé já que eu não prego os olhos há uns dois dias. Durante o trajeto naquele transporte barroado, cheio de pessoas com desodorante forte além de aguentar o corno do motorista que não consegue entender que sertanejo não é música coletiva. Depois tenho que engolir aulas precárias sobre assuntos estúpidos ministrados por professores desmotivados. Assim sou eu que vou rasgar as pregas do rabo logo pela manhã. Ainda tenho que aguentar a cidade sendo fissurada pelas obras de extrema urgência. Me poupe dessa delonga de ilusão.

Às vezes preciso ir às pressas pro trabalho, visto minha farda e tento parecer apresentável. No fundo eu só gostaria de vomitar no sapato lustroso do chefe e cagar em cima da papelada que ele mantém em cima da mesa, todas são prenúncios de punição que ele adora distribuir entre aqueles que fazem todo o trabalho com tão poucos recursos e ainda diz sentir orgulho de já ter participado desse  grupo. Acho que deve ter esquecido que o orgulho a gente guarda no meio das pernas para a vida toda. Putos! Todos ao redor, com garras afiadas e pupilas verticais. O que eu quis da vida quando me meti nessa roubada?

Já faz três meses que não vejo o meu pai. Minha mãe poderia passar décadas sem me dirigir uma única ligação, pelo menos eles ainda tem a família pra se confortar. Eu tenho umas belas garrafas vazias e uma conta no vermelho que insiste em se manter viva na esperança de que eu ainda possa ter algum futuro promissor. Meu irmão resolveu não se aliar à mesma operadora que eu pois os amigos dele são de outra e, ora pois, é melhor manter contado com esse bando de desocupado do que passar um final de semana com quem sempre se desprendeu para dar à ele o melhor. Aquilo que eu nunca senti o cheiro. Talvez eu realmente mereça tanta impugnação, de fato.

Odeio você que vive de status, que marca até o banheiro em que peida só porque tem piso português. Eu queria esfregar sua cara nesse ralo até seus ossos saltarem da carne! Tenho nojo em quem faz amizades por dinheiro ou quem tenta sustentar qualquer pose sem ter um único puto no bolso. Faz uns belos anos que eu não vejo o Sol brilhar tão forte contra meus olhos, a ultima vez que isso aconteceu eu era moleque e achava o máximo viver de cachorro-quente de baixo orçamento. Resolvi ganhar um pouco de dinheiro e quando voltei não encontrei mais meus amigos, meus amores e minha própria paixão pela vida. Está tudo embrulhado em plástico bolha na porta do inferno só esperando minha hora de buscar a encomenda e servir o tinhoso por toda a eternidade. Todo o dinheiro que eu consegui hoje gasto em cerveja, cigarros e entorpecentes baratos que maquiam minha instantânea felicidade enquanto eu tento ser normal por um único momento. Já acordei banhado em cerveja fedendo a desprezo, porque eu só tenho que continuar com essa vida de merda. Eu sou um merda!

Tenho uma moto que não funciona. Sei dirigir mas não tenho carteira. No próximo mês serei expulso da casa que eu sempre critiquei mas que agora não quero mais sair. Deixo as coisas pelo caminho por comodidade. Me acostumei com a decência de estar bêbado.

A única companhia que tenho é um cachorro estupido que eu me incumbi de cuidar para ser um pouco mais amável com as pessoas e tudo que eu ganhei foi um macaco branco que não me respeita e me acorda durante as madrugadas com seus latidos estridentes. Ainda tenho que dar comida regularmente mesmo quando eu estou morrendo de fome há varias horas. Toda vez que vou ao banheiro é um concerto dos infernos de latidos e rosnadas nada amigáveis, tudo acompanhando um incomodo cheiro de merda. Ele faz questão de manter sempre a casa cheia de merda não importa a dieta que eu tenha preparado. Não duvido nada que amanhã eu acorde de ressaca com ele lambendo a minha boca e esfregando seu pinto molhado em meu calcanhar. Não duvido nada.

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The Ugly Thuth

Todo vegetariano é fresco. Já viu alguém com os dentes brilhando ir ao dentista só porque é recomendável que façamos isso periodicamente? Não acredito em preservação da saúde, isso pra mim é tudo besteira. Tudo que a gente faz é baseado no retorno que o nosso corpo e mente nos dá, a nossa estrutura de vida é toda mapeada pelo espelho e maquiada pela nossa suja e leviana ignorância. Queremos ser vistos, notados, desejados e invejados. Eu não estudo línguas pra me dar bem no trabalho, isso não seria prioridade se o nosso raciocínio parasse aí. O interessante desse elo é que uma coisa puxa outra e ser bem sucedido implica em ter bom emprego, bom carro, dinheiro na carteira e ser influente também. E tudo isso nos leva àquele buraco maravilhoso em que Nostradamus profetizou que encontraríamos o tesouro – o que, de fato, se cumpriu. Planejamos a semana toda, nossos sonhos e passos unicamente pra realizarmos o desejo mais primitivo e simples, queremos manter eterna a profissão (não remunerada) mais antiga do mundo.

Acho hipocrisia também quando ouço que as mulheres se aprumam pra impressionar às outras. Tudo mentira deslavada! Se isso for mesmo verdade não vejo um único obstáculo que nos impeça de construir um mundo novo e lésbico. Seria isso tudo um impasse de admitir que realmente estão desejosas de conquistar todos os corpos do mundo mas ainda não estão preparadas pra lidar com o machismo que ainda impera, infelizmente. As mulheres então quando planejam algo em benefício próprio podem se perder completamente: bronzeamento artificial, peeling, depilação, clareamento dentário, DIETA, pompoarismo, lipoaspiração, silicone, alisamento tailandês, francesinha, cílios postiços, valorização labial (lá mesmo!), roupas de verão/inverno/praia/colegial/jardim. SAPATOS. Maquiagem, tatuagem, pilantragem e fofoca. Tudo isso pra se dar bem perante a concorrência. Nossa, fiquei até tonto imaginando isso.

Homens: banho + tênis, jeans, camiseta + cerveja = SOU FODA (na cama te esculacho).

Os meninos são mais práticos: jogam futebol, videogame e passam horas em seus quartos treinando aquela maldita escala pentatônica só pra chegar o dia em que eles serão os mais fodas do mundo e estarão passos largos à frente de seus concorrentes em busca do prêmio maior. Trabalham duro pra se vestirem bem e pra marcar ponto nas baladinhas mais quentes do momento. E claro, se possível vão pra Europa só pra tirar foto com pose babaca pra fazer inveja em todo mundo com aquela legenda que nem ele mesmo sabe o significado.

Existem os marombas de plantão, os escritores frustrados e os caminhoneiros sujos de graxa. Mas não importa, no fim estão todos em busca do mesmo propósito que fez Adão perder uma costela, sendo obrigado a comer uma maçã envenenada pra amenizar a dor daquela provação. Um brinde ao visionário!

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É Froyd admitir mas é verdade

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Hammer Flamejante

Não gosto de gente mimada. Odeio quem se gaba por algo que se têm sem ter levantado um puto pra conseguir isso – esse é o tipo de pessoa que eu desprezo. Prefiro os indefesos, os incapazes e abandonados pela sorte e o sistema. Quem disse que não se deve chamar aquela garota esquisita pro esquenta só porque ela é isolada? Nunca se sabe os segredos que a terra guarda até que a gente vá lá e os descubra com nossas próprias mãos, já cansei que achar minas de ouro mergulhadas no brejo. Nunca pare na etiqueta, vá além e faça esse favor à humanidade mas antes, claro, se esbalde até cansar.

Lembro até hoje de um lance no Ensino Médio: prova de surpresa de física, todo mundo bombou exceto eu. Na saída da aula várias pessoas vieram me cumprimentar e tentar desvendar o segredo do sucesso. Bando de tolos! Mas eu só procurava uma brecha na bajulação pra destilar um pouco de veneno até que em certo ponto me dei conta que havia um grupo de garotas nerds chorando no canto da sala. Me aproximei e a questionei o motivo da amargura na tentativa de ajudar com algum pensamento puritano. Para a minha surpresa, tomei um choque com aquela cena um tanto bizarra mas puramente linda: lágrimas escorrendo pros trás dos óculos e aqueles olhos claros e brilhantes me encarando por vários minutos. Foi uma das vezes em que eu realmente notei que esse tipo de devoção por quem tá por baixo pode se tornar algo norteador em certas ocasiões. Com o passar do tempo me meti em grupos de recuperação, fiz cartelas de acompanhamento medicinal pra um amigo, outro requisitou uma espécie de doutrina psicológica. Anos depois tive uma experiência depressiva e isso, por incrível que pareça, tão não é só perda de tempo como foi uma das épocas em que eu mais cresci na minha vida inteira como pessoa. Se compreender e tentar fazer isso com quem já perdeu as esperanças é algo realmente formidável. Nessa conduta namorei góticas, garotas com dificuldades de auto afirmação, tantos talentos esquecido que me diziam que nunca imaginavam que poderiam realizar tanto e ser tão felizes. Algumas ofereceram generosos favores em troca e eu, como um garoto comportado e íntegro que sou, obviamente recusei.

Então se você se sente discriminado só porque toma Crystal, eu tenho um recado pra você: morra, Diabo! Mas se você não toma essa porcaria e acha que o mundo vai cair na sua cabeça, pensa que nunca será promovida ou, pior, pensa que vai morrer virgem, por favor, não, não me olhe de lado com cara de quem vai pular da Ponte Sergio Motta que eu terei que correr atrás de você e te denunciar, mas antes teríamos umas boas contas pra acertar.  Isso parece um dom, uma áurea transcendental que habita minha consciência ou apenas pode ser somente papo de bêbado, por isso deixe-me te explicar de forma mais prática a esquemática da situação:

Imagine um pau magnifico que intimida já na primeira aparição. Ele te faz tremer as pernas, te dá câimbras dos dedos do pé e onde quer que se encoste há calafrios, cócegas e pequenos soluços de inquietação. Ela demonstra com todas as forças que quer dobrar a alma ao meio pois não aguenta uma espera sem fim. Quer prazer e quer agora! Então você resolve conceder e mergulha fundo naquela piscina olímpica cristalina – vai de boca no azulejo. E deixa que maré o leve pra longe, lá no desconhecido onde os olhos já não enxergam, onde as luzes estão apagadas e os gritos se tornam mais intensos. Tudo é guiado por um movimento singular, peristáltico voluntário de via dupla, uma troca de suor, de forças contrárias, dentes na carne, olhos na boca e dentes nela novamente. Troca de fluídos! Quanto mais fundo se entra mais ainda os mistérios se escondem, todos aqueles segredos por trás das dez estrelas continuam fugindo e se escondem dos outros novos milhares que estamos plantando agora em sua cabeça, digo, na dela com sua cabeça. Não. Você entendeu, certo? Cada centímetro expõe novos gritos que fazem os olhos orbitarem, no sexo todo mundo é vampiro transformado, somos todos animais querendo mais sangue alheio, estamos famintos há décadas. Posso sentir seu corpo inteiro numa onda de prazer, os ombros contraídos, a língua gélida, os seios apontando e dizendo “fuckyeah, você é o cara!”. Nos tornamos um globo sensível que se contorce até com o vento na janela. Tudo aumenta exponencialmente e tu não se importa mais em qual chão ou em qual mastro resolveu pendurar e mostrar sua inexplorada bandeira ao mundo, mas ela está lá, toda linda, esticada e tremulando nas frequências do seu coração e das suas mãos que batem contra a parede. Treme, bate, bagunça e morde. Você fecha os olhos e a vida inteira rasga pra você em milhares de imagens e não importa mais se o sindico já acordou com a martelada que a cama dá no teto do apartamento abaixo. Alguém pede: mais, mais, não, não, NÃO PÁRA. MAIS, MAIS, MAIS e BANG!… seu pau acerta a cabeça dela nessa viagem louca, suja e cativante. Você plantou muito mais que uma mandioca no deserto, amigo, e ela não vai deixar isso em branco: a mulher goza pelo cérebro. É sabido desde a época em que as relações se faziam na fila do banco ou na garupa da motocicleta. Claro que naquela época não haviam roupas nem bancos e motocicletas. Mas essa é sim a lição mais antiga do mundo, vide as tremendas historias de quem já a fez gozar por debaixo da mesa enquanto espera a lagosta no restaurante. Quem é nunca dividiu o fone de ouvido com o amigo e depois de meia dúzia de músicas saiu com os olhos virados, sorriso de algodão doce e teve a clara sensação de ter tomado uma surra? Me digam, pequenos duendes do pecado.

Bom mesmo é chegar sem fazer barulho e explodir tudo na sua cara. É bacana ser misterioso, louco, imprevisível, idiota e rir de tudo o mais alto possível. Eu fui jogado fora da caixa de clichês e não há sábio no mundo capaz de definir. É assim que são feitas as melhores caixas de presentes: com um palhaço exagerado e ridículo pulando de dentro dela, sacudindo tudo que tem direito, aquele que te dá um puta susto no inicio mas que depois te faz chorar de tantas gargalhadas e ainda empresta sua roupa pra você se sentir um pouco idiota também. Eu sou o pinto peralta, não me contento em entrar direito e fazer o trabalho certo e religioso. Vou de cabeça, torto, babando. Mexo de um lado pro outro, tento coisas antes nunca feitas no universo, vou gritar e bater de lado. É tudo parte de mesma jornada louca de estar vivo e se sentir satisfeito por isso. Eu vim aqui pra balançar o seu mundo, baby, espero que não se desespere ao perceber que esquecemos os paraquedas.

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Pós operatório

Contrariando as opiniões de quem teve experiência cirúrgica parecida com a minha, eu não fiquei em casa sentindo os órgãos se retorcendo em busca de algum espaço. O que mais aconteceu foi que eu passei esse período de recuperação pulando de um lado pro outro, pra mim sempre foi muito difícil ficar parado muito tempo. Aluguei um quarto na casa de meus pais e pude lembrar do tempo em que o filho mais velho era mimado e adorado em casa. Já não tinha plenas condições de continuar fazendo o mesmo inferno daqueles da infância mas ainda sim foi bom tirar os velhos do sério e perceber que no fundo eles ainda se importam com o filho barbado.

Muitos anos antes foram eles quem ouviram os primeiros sintomas: dor abdominal aguda, músculos contraídos e garganta trancada. Era necessário gritar pra conseguir manter a respiração, às vezes andava em círculos pelo quintal, ora a gente dava um pulo no hospital. Numa dessas visitas a enfermeira mais meiga que eu já vi me drogou pelos próximos sete anos (e também beliscou minha bunda, diga-se de passagem). Depois de ouvir as minhas queixas e bagunçar o meu cabelo ela me indicou Buscopan Composto para cessar as dores locais e eu fui dependente daquelas cápsulas brancas dali por diante. Como sempre fui muito impulsivo e desligado, às vezes esquecia o tal remédio em casa e sumia no mundo, no meio do caminho sentia o ar rarefeito, ondulações e fazia aquela cara de soldado em estado de guerra: PÂNICO! Eu já sabia que iria me foder legal em poucos minutos. Já tentava amenizar com respiração frenética antes da hora, queria me antecipar à crise mas não adiantava, ela viria forte, calma e destruidora. E eu fazia de tudo pra sair da presença das pessoas e curtir aquela simulação de parto natural gratuita.

Enfermeira: fetiche eterno.

Sete anos nessa novela de dor, esquecimento e fodelância da minha juventude. É por isso que eu vou sempre repetir pros meus netinhos pra parar com essa putaria de que não gosta de remédio, que o hospital é um freak show e os médicos são bruxos. Pode até parecer sim mas é um mal necessário e eu tive que aprender isso da pior maneira no último mês de agosto quando um crise séria me tirou do trabalho direto pro hospital. Tomei uma superdose do medicamento que me ajudou todo esse tempo mas não adiantou, realmente as coisas tinham ficado sérias demais.

Às vezes tinha aquela mesma sensação inicial das crises de contração abdominal, era da mesma forma. Demorava uns poucos segundos pra colocar as ideias em ordem e lembrar que eu já mandei a porra da vesícula pro espaço e não há mais razão pra sentir essa espécie de sintoma. A adrenalina que chega é realmente válida. É como se alguém o acusasse de ser pai de um garoto de 2 anos sem saber que tu fez vasectomia no início da vida adulta, é algo clinicamente impossível mas todo frouxo vai pensar durante um tempo se aquilo tudo é mesmo possível de acontecer.

Felizmente tudo voltou ao normal. Já estou fazendo exercícios leves e eu estou bem mais à vontade agora, apesar da ironia dos amigos em dizer que a o único peso que levantei na vida foram quilos de carne e garrafas de cerveja. Malditos! A vida segue quente em direção ao ponto em que meus ossos possam reclamar mais uma vez e eu retorne às palavras mais sujas do dicionário.

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Dias a mil

Esses últimos dias tem sido uma fita fotográfica quilométrica de bons e maus exemplos, sensações incríveis e depressões posteriores, e apesar de tudo é mais um pacote industrial de lições de vida.

Já fui convencido de que a força mais construtiva do mundo é a autoconfiança. Pessoas saíram do anonimato e mudaram a vida de outras milhares porque tiveram uma ideia como ignição, não pararam aí, mas deram o próximo passo, tiveram a atitude de fazer e ficaram à mercê do julgamento alheio. Deram a cara pra bater e têm hoje o nome escrito na história, você tira o maior proveito disso mas não está nem se fodendo pra quem fez acontecer há tanto tempo. Antes de você nascer, ano passado, no réveillon, ontem – exemplos desfilam aos seus olhos e tu não quer nem saber, só pensa no próximo episódio de Glee que vai assistir (e dançar) quando chegar em casa mas nem ao menos sabe quem é Sean Parker. Uma verdadeira bicha louca porca imunda!

Eu sempre fui o exemplo clássico de pau no cu mundial, assim como você. Chegava nos lugares com cara de mau, como quem não trepa há meses, não falava com ninguém e apenas apreciava minha playlist mais demoníaca enquanto sentia ódio de tudo que se movia. De repente, a Michelle se levantava da cadeira e ia ao bebedouro num ritual mais angelical já visto. Ela, do alto dos seus 1,76 cm se inclinava pra molhar a boca, seus seios apontando para os pés e meus olhos lacrimejavam de emoção, de tesão e de incapacidade. Pois bem, meus amigos, sabe o que eu fazia? Nada! Ficava apenas lá, babando com o fone de ouvido enfiado no rabo. Não falava com ela, não colava chiclete em seus cabelos, não desenhava pênis em sua cadeira favorita. Enfim, não movia um puto pra estreitar os nossos laços. Hoje ela é mãe de gêmeos, sim, e daí? Eu poderia ter sido o cara que arrancou pétala por pétala daquela rosa, mas não fiz. Eu poderia ter enchido minha Ferrari de poeira rodando o mundo. Mas, ainda bem, essa foi uma lição aprendida no tempo certo.

A euforia que todo mundo sempre quando assiste o filme “Sim, Senhor!” (Yes, man) é que vai sair de casa com uma jaqueta de couro e botar pra foder nesse mundo, mas falando de uma forma bem geral tu sabe que não precisa ser tão radical assim. Todo momento aparecem inúmeras possibilidades de se fazer algo do caralho, algo que te faça ter medo, que te faça suar por ser a primeira vez na vida. Algo que pode ser pequeno em termos concretos mas que vai te fazer sentir anos mais vivido, um detalhe pode fazer seu ano medíocre inteiro valer a pena! E a diferença é apenas saber o quanto você quer aquilo.

Ninguém se importa se tu não sabe dançar, vá lá e faça! Aquela garota nunca estará na sua cama se você não der o primeiro passo: um elogio, uma pergunta, um sorriso – estreite os laços, traga a cintura dela contra a sua. Você nunca será um executivo e tomará whisky escocês em Dubai se passar as tardes de terça-feira jogando Warcraft. E mesmo que tu tenha conseguido seu objetivo mais breve não tenha medo de ser ambicioso. Tive experiências recentes com pessoas mais talentosas, mais inteligentes e bem sucedidas. Outras tinham um olhar de quem acabou de sair do set de filmagem de um longa-metragem pornô. Não precisei mentir ou contar vantagem, apenas não coloquei a pessoa num pedestal de imediato, não me achei menos que ela, não me inferiorizei. Todas esses contatos começaram com uma simples frase ou apenas um sorriso e tudo se desenvolveu de forma linear, de igual pra igual, apenas deixe que as coisas sejam agradáveis naquele momento e o seu leque de ação irá se expandir naturalmente. Ambição não é veneno, apenas te afoga se tu não souber lidar com ela. Se a garota fantástica com quem tu começou a sair tem uma colega de quarto que é uma verdadeira mal comida, calma, não perca a paciência, você pode ligar ou até aparecer lá de vez em quando, não prive o universo de te surpreender. Daqui a pouco você pode estar rindo sozinho numa barraca de cachorro-quente enquanto tomo mundo pensa que você é um retardado mas não, tu é um cara foda porque não se escondeu e conseguiu ter uma experiência de vida fantástica!

– Porra, Johnny, porque tu só fala de mulheres, tu só pensa nisso?

– Não, garoto. É que eu ainda não sou rico e não é possível lavar roupas em minha barriga ainda. Então mantenha sua bunda mole aí na rocha e escute os conselhos!

É preciso deixar claro que você não pode se comportar como uma menina – mesmo que tu seja uma. Essa atitude de ser confiante deixa uma brecha para as ocasiões em que nem tudo vai dar certo, é nessa hora que tu tem que mostrar o saco-roxo que tem, não literalmente, é claro. Às vezes os planos não dão certo, as coisas fogem do controle e tu precisa estar focado e não se abater. Consertar o que saiu errado e manter a cabeça firme, não se punir e estar confiante e preparado. Sem desculpas. Você só precisa estar lá novamente e mostrar que não tem medo.

Finalizando, vou deixar duas verdades universais:

1) Se tu quer mesmo fazer isso mas não consegue, tome mais um gole. Excetua-se o caso em que tu precisa falar com seu chefe (como eu já fiz e deu certo – fuckyeah!). Se for beber, não faça nada perigoso.

2) Tire a vagina do pedestal! Ela não é melhor que você e nem tem o direito de ser cruel contigo só porque é mais gata que a Scarlett Johansson. Mas, claro, não seja babaca.

Boa sorte e boa vida!

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Highway To Hell

Desde muito antes de eu me dar contas de minhas ações já estava preparando as melhores desculpas para conseguir permissão para assistir um daqueles filmes horríveis feitos pra TV e que passavam durante as madrugadas. Meu irmão sempre me acompanhava nessas horas de drama compartilhado, sim. Pra mim isso se tornou um tremendo drama mais tarde, tudo isso: as madrugadas, o terror e as consequências. Todas elas batem de uma forma mais silenciosa e muitos mais dolorida do que durante aqueles minutos de suspense da infância.

Foi depois de uma nova experiência com o filme ‘Rejeitados pelo Diabo’ que o meu irmão veio com uma puta ideia provocante, dizendo que eu deveria ouvir um som fantástico que ele tinha conhecido pouco tempo antes. Procurou dentre toda a discografia da banda e em segundos eu estava sentindo anjos acariciarem os meus ouvidos, fiquei sabendo depois que era “Free Bird” o nome daquela música, clássico do Lynyrd Skynyrd e embora eu nunca tivesse chegado ao ápice sexual com esse trilha sonora era exatamente essa a sensação que essa canção refletia em mim, a história do pássaro livre que voa sem bater asas, que deita sobre o próprio horizonte. Agradeci a ele apenas com um olhar, ele sabia o que eu estava sentindo, olhei também desafiante para o meu destino, caminhei pensativo e distante. Estava aliviado, tinha a exata noção do que era cuspir fora dois pulmões cheios de nicotina.

If I leave here tomorrow
Would you still remember me?

Existem certas estações que animais mais ferozes se preparam para o bote, os mais sociáveis se ajuntam e bolam os planos pra superarem as épocas de escassez e outros, bem, outros dormem e se mantém aquecidos em suas zonas de conforto. As pessoas também são influenciáveis pelas marés, se adaptando ao estilo de vida que se adequa ao seus objetivos futuros. E pra consegui-los é preciso às vezes deixar família de lado, sem qualquer notícia, só pra sentir aquela dor sozinho, escutar o ruído estalado de um machado cortando um tronco apodrecido e se sentir igual, abrir a boca e não ouvir sua voz ganhar o mundo ou aquele ouvido que sempre esteve próximo. Tu só precisa saber se consegue enxergar dignidade quando sorri para o espelho e vê seus dentes sujos de sangue e sua carne exposta; se consegue aguentar a dor e se sente realmente feliz por sua própria companhia.

Ainda ouço um suave murmúrio quando você passa de longe parecendo não se importar. São os reflexos das histórias mal resolvidas fazendo das pessoas que tu não conhecia até terça-feira passada novas testemunhas de um caso verídico, contado cheio de ódio depois da bebedeira da festa de formatura. Foi isso que a nossa vida se tornou, um estúpido e breve acorde sustenido. Um som que escapa dos dedos e se vai como fumaça, ganhando formas independentes e nocivas, indecifráveis. Eu queria ver o sangue e o suor misturados e manchando para sempre aquela gola branca de sua camisa de brechó. Eu poderia estancar esse seu sangramento com a minha saliva. Mas ainda vivo de esquinas, de bar em bar, de amores platônicos e da calma que a insanidade me dá depois que me completa. Tenho vivido de caixas empoeiradas e tirando o melhor de cada pessoa instantânea para o meu próprio sustento. Mas não faz mal se elas não descobriram ainda, acho eu.

Não me sinto tão sozinho eu tenho os meus amigos – só aparecem quando eu bebo.

Certa vez eu havia esquecido o cartão bancário em casa e precisei comprar cervejas pela honra do meu nome. Deu tão certo que os garçons e as atendentes me conhecem assim que eu apareço, não porque eu seja simpático. Tenho bebido demais e perdido todos os dias posteriores, afogado em tédio nos domingos, em aspirinas e novas desculpas para me permanecer sozinho. Tem dias que é difícil explicar que o tesão só duras algumas horas e que viver de porção única é mais saudável – o que na minha opinião apenas quer dizer que é menos poluente. Tenho enchido a cara pra preservar gente antiga e inconsciente, que gasta as horas trepando nas mesas de escritório e depois de poucos minutos recolhem as roupas intimas da gavetas pra jogar no lixo na hora de pedir uma nova caixa de disquetes ao chefe. Estou cansado de gente ordinária!

Um dia você para na beirada de uma ponte e percebe que o sol está se pondo, e se dá conta que há anos não via essa cena. Olha pra baixo e vê os sapatos gastos e o dedo anelar de sua mão já nem possui mais a marca da aliança daquele distante amor. Poucos centímetros dali há manchas amareladas na ponta dos dedos causadas pelo excesso de cigarro. E ainda tem espaço na sua agenda pra rir de tudo isso, diz que estão vendendo por aí porção de amigos embalados a $2,90 o maço.

Meu último amigo havia matado a vizinha asfixiada logo após o coito por um travesseiro de penas de ganso siberiano. Fico rindo comigo mesmo e imaginando que isso daria uma grana preta pra qualquer diretor com um mínimo distúrbio de valores familiares e outra maleta de grana para os tantos terapeutas de causas baratas. O homem mais sábio que eu conheci foi um hippie que gostava de heavy metal e ignorava as pessoas. Dizia-me toda semana que iria ir embora e gostaria de passar a vida tocando banjo debaixo das copas de árvores altas na Amazônia. Faz, no mínimo, sete anos que eu não o vejo e com certeza teria sido um prazer ter ido com ele procurar gravetos pra acender fogueiras clandestinas.

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A crise dos 20 e poucos anos

A chamam de ‘crise do quarto de vida’.
Você começa a se dar conta de que seu círculo de amigos é menor do que há alguns anos.
Se dá conta de que é cada vez mais difícil vê-los e organizar horários por diferentes questões: trabalho, estudo, namorado. E cada vez desfruta mais dessa cervejinha que serve como desculpa para conversar um pouco. As multidões já não são “tão divertidas”. E às vezes até lhe incomodam.

E você estranha o bem-bom da escola, dos grupos, de socializar com as mesmas pessoas de forma constante. Mas começa a se dar conta de que enquanto alguns eram verdadeiros amigos, outros não eram tão especiais depois de tudo. Você começa a perceber que algumas pessoas são egoístas e que, talvez, esses amigos que você acreditava serem próximos não são exatamente as melhores pessoas que conheceu e que o pessoal com quem perdeu contato são os amigos mais importantes para você.

Ri com mais vontade, mas chora com menos lágrimas e mais dor. Partem seu coração e você se pergunta como essa pessoa que amou tanto pôde lhe fazer tanto mal. Ou, talvez, a noite você se lembre e se pergunte por que não pode conhecer alguém o suficiente interessante para querer conhecê-lo melhor. Parece que todos que você conhece já estão namorando há anos e alguns começam a se casar. Talvez você também, realmente, ame alguém, mas, simplesmente, não tem certeza se está preparado para se comprometer pelo resto da vida.

Os rolês e encontros de uma noite começam a parecer baratos e ficar bêbado e agir como um idiota começa a parecer, realmente, estúpido. Sair três vezes por final de semana lhe deixa esgotado e significa muito dinheiro para seu pequeno salário. Olha para o seu trabalho e, talvez, não esteja nem perto do que pensava que estaria fazendo. Ou, talvez, esteja procurando algum trabalho e pensa que tem que começar de baixo e isso lhe dá um pouco de medo. Dia a dia, você trata de começar a se entender, sobre o que quer e o que não quer. Suas opiniões se tornam mais fortes.

Vê o que os outros estão fazendo e se encontra julgando um pouco mais do que o normal, porque, de repente, você tem certos laços em sua vida e adiciona coisas a sua lista do que é aceitável e do que não é. Às vezes, você se sente genial e invencível, outras apenas com medo e confuso. De repente, você trata de se obstinar ao passado, mas se dá conta de que o passado se distancia mais e que não há outra opção a não ser continuar avançando.

Você se preocupa com o futuro, empréstimos, dinheiro e com construir uma vida para você. E enquanto ganhar a carreira seria grandioso, você não queria estar competindo nela. O que, talvez, você não se dê conta, é que todos que estamos lendo esse textos nos identificamos com ele. Todos nós que temos ‘vinte e tantos’ e gostaríamos de voltar aos 15 algumas vezes. Parece ser um lugar instável, um caminho de passagem, uma bagunça na cabeça. Mas dizem que é a melhor época de nossas vidas e não temos que deixar de aproveitá-la por causa dos nossos medos!

Dizem que esses tempos são o cimento do nosso futuro. Parece que foi ontem que éramos adolescentes e amanhã já estaremos com trinta velas sobre o bolo. Assim, tão rápido?!

Façamos valer o nosso tempo – que ele não passe!

Autor desconhecido

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Jaleco da depressão

Me virava de um lado pro outro enquanto cobria somente uma perna com o edredom, mas não ficava bom. Um braço embaixo do travesseiro, bunda pra lua, opção “sono bom”, nada dava certo. Só o que eu ouvia era a batida leve dos ponteiros e um médico com os olhos vermelhos e saltados atrás de uma máscara me dizendo que precisaria me costurar e que era hora de pagar pelos meus anos evitando a ir ao hospital, me auto medicando pra não ouvir papo furado e regras de conduta. Mas logo pela manhã não teria jeito, era tomar coragem e rumar pra fazer os exames que o gastroenterologista me orientou e descobrir porque há tanto tempo um diabinho mastiga e chuta as paredes do meu estômago, me deixando sem fôlego e me humilhando a ponto de eu gritar, fazer respiração de parto e outras coisas igualmente ridículas que me aproximavam de uma comparação nada honesta com o sexo oposto.

Mas eu ainda nem tinha marcado os exames ainda!

Peguei o telefone e liguei. Todo mundo simpático, cortesias, registro e tomei a primeira rasteira: o próximo horário pra ultrassonografia só daqui a 15 dias. Não podia ser, eu tinha abandonado o serviço sentindo dor horas, já tinha prometido ser uma pessoa melhor e o universo não estava ajudando. Nessa hora, lembrei das letras garrafais do médico no prontuário: URGENTE. Era a hora de usar isso ao meu favor e fui direto pra clínica fazer barraco.

Tive que seduzir conversar com as enfermeira e explicar a minha situação e logo eu estava sendo encaixado no meio dos outros pacientes, yeah, eu estava dentro e lutando agora pra ser atendido e me livrar daquela condição o quanto antes. Como eu havia feito o jejum absoluto para a endoscopia e agora tinha que fazer o ultrassom, tive que tomar água o suficiente pra minha bexiga inchar e poder fazer o tal exame. Acontece que sou amigo do barman e minha bexiga já está acostumada com esse efeito sanfona, pernas pro ar novamente. Resultado: tive que tomar DOZE copos d’água e ficar andando pelo hospital evitando mijar nas calças, ou seja, uma ímpar demonstração de marcha atlética sem nenhum preparo físico e/ou psicológico para tal. Absolutamente deprimente.

Todo esse perrengue foi compensado, em partes. Primeiro, quando o doutor entrou na sala com um penteado similar ao do Calvin e fazendo piada eu logo abri um sorriso, bom humor é contagiante! Seguimos conversando e ele disse que meu fígado é… wait for it… perfeito! Me senti dono da situação, só esperando a hora dele me dispensar e marcarmos um noite de poker. Mas aí veio a decepção quando ele me disse que tinha algo errado com a vesícula biliar, ela está doente e com vários cálculos, foi quando ele me brincou com a minha tolerância.

– Você sabe qual é o melhor amigo da vesícula?

– Água! – respondi com certa contundência.

– Não, bisturi!

A partir daí surgiram duas questões opostas. O alívio de que meu problema havia sido diagnosticado e poderia ser tratado e o pânico de ter que entrar na faca. Consegui encarar com bons olhos aquela situação depois da breve análise. Mas calma aí, teve mais um recadinho do palhaço Bozo pra mim.

– Meu amigo, o negócio é o seguinte: tu não pode mais comer gorduras, frituras, carne bovina, leite e seus derivados. Essa é sua nova dieta e tu tem que segui-la. Come muita fruta, verdura, fibras e sucos. Estamos entendidos?

– Mas, doutor, como eu vou viver sem churrasco?! Eu como carne todo dia, carne berrando. Não tem como o senhor me proibir outras coisas? E tem mais, leite é saudável. Eu tomo desde criança e nunca fez mal.

– Não tem acordo. Tu tem que parar com isso AGORA! Ao sair daqui dessa sala já passa ali no corredor e toma dois copos d’agua. Essa é a sua nova vida, uma semana depois da cirurgia você pode comer até um boi mas até lá tem que comer somente o que eu te disse. Várias pessoas trataram isso com displicência e foram direto pra UTI. Assunto sério.

Saí do hospital e me senti desolado, desamparado e iludido. Senti uma vontade enorme de chorar, correr, morrer e comer carne. Mas logo passa, daqui uns dias vocês vão me em uma churrascaria qualquer da cidade… ou não!

PS.: Bebidas alcoólicas não foram mencionadas na conversa com o doutor, logo, estou cumprindo a dieta dele à risca :)

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