Relicário
Publicado; maio 21, 2012 Filed under: Cotidiano | Tags: café, decepção, luz dos olhos, outono Leave a comment »Dias sem dormir direito e lá se vai aquele papo sem fundamento. Sempre achei mais confortável sentar nos degraus de uma escada de concreto, maciça pelo tempo e por aqueles que já pisaram em cima, já esperta em conviver coberta de poeira. Uma conversa marota sem fundamento enquanto o céu está nublado, não consegui tirar os pés de casa e a minha lista está borrada a rubro. Me fale sobre família, sobre os homens que te deixaram esperando e os filhos que teve que criar sozinha. Escuto a máquina de lavar lá fora se silenciar, viro às costas quando vejo uma lágrima preparando queda-livre.
A brisa da tarde passa diferente, antes as camisetas era deixadas sobre a lama da chuva que ocorreu no dia anterior, nossos pés corriam mais que os pensamentos, ninguém corria pra casa bombeado de ansiedade. A vida já correu macia nos contornos de seu rosto moreno. Um dia separou as nossas vidas e assim eu aprendi a fazer cartas de amor, elas ficaram mais dramáticas após o outono.
Das tuas cartas as que eu mais gosto são aquelas de uma palavra só, prefiro teus beijos de vinte minutos. Tentei pichar o teu rosto na parede do meu quarto mas achei injusto porque coloquei quatro folhas de blackout na janela e eu não gosto de incidir luz sobre você, temo que isso cegue o meu bom senso. Esse é o único princípio que me mantém com a canela na areia, tive que me vendar pra esquecer que deixei ervas daninhas crescendo no nosso quintal.
Os telefonemas que recebe são ignorados e os compromissos são firmados por mensagens de texto. Tapei a fresta que sua mão passava devagar na manhã. Seus olhos não são mais profundos e esse azul insosso continua perturbando toda a cidade. Eu sei que a culpa toda é das músicas pop, do veludo macio e roxo que cobre caixas de presentes compradas com vale recebido do amigo oculto da empresa. É uma maça envenenada randômica.
Selva de pedra
Publicado; maio 11, 2012 Filed under: Viagens | Tags: Galeria do Rock, Lollapaloza, São Paulo Leave a comment »Na madrugada do dia 05 de dezembro o que mais se via era gente reclamando em todo canto. Pessoas exaltadas e angustiadas por causa do site do Lollapalooza BR ter travado impedindo a compra dos ingressos. Típico de gente burra esse comportamento. Esperei no conforto da minha cama que aquele bando de juvenil fosse dormir e comprei com extrema facilidade, quase na hora do sol nascer, meu par de ingressos para o festival.
Fiquei como monge só esperando e rodeando as melhores oportunidades pra garantir meu voo e hotel usando apenas o custo/benefício como julgamento. Mais uma etapa vencida, pequeno gafanhoto, estava com o pé no Jockey.
Mas brasileiro é foda, e apesar de eu ser bem melhor que a maioria, me deixei levar pelo conformismo, já que estava tudo certo, esperava só o momento dos planetas se alinharem e eu entrar naquele avião. Porém, lá pelo final de março meus ingressos ainda não tinham chegado e eu comecei a me incomodar (os shows estavam marcados pros dias 07 e 08 de abril), muitos amigos já estavam tirando diversas fotos e esfregando no meu nariz e ainda tinham a capacidade de dizer que eu não ia conseguir entrar. Bando de putos! Tive que tomar uma atitude e como eu odeio falar ao telefone, mandei um e-mail pra organização do evento. Nota: eu tentei ligar sim mas eles me deixaram mais de 5 minutos escutando uma música sem vergonha, sendo um ato, ora pois, inadmissível por parte do staff de um evento desse porte.
A princípio, a comunicação fluía bem até que em dado momento recebi algumas informações um pouco desconexas. Dá uma olhada aí, bro:
Cê tá ligado? É isso mesmo. Meu ingresso foi entregue lá na casa do capeta, uma cidade quase 500 km distante da minha e o mais incrível é que a política do festival quanto à entrega dos ingressos, seja pro titular ou terceiros, é recheada de uma burocracia do cão. Eu me perguntei como é que esse motoboy picareta me encontrou lá na garganta do diabo? E quais documentos ele exigiu pra concluir o seu trabalho? Pois é, isso me cheirou uma boa macumba e eu fui direto pra central dos correios fazer barraco reclamar pelos meus direitos :)
Chegando lá, me mandaram voltar outro dia porque precisavam do número de registro e blá blá blá bala de icekiss. Me deram o telefone de um atendente que eu liguei até cair a bunda mas ninguém atendeu. Voltei lá, já cheguei metendo bronca, fui com uma camisa do Corinthians pra intimidar HAHA mentira: eu tenho princípios. Me deram outro telefone, eu já chamei o gerente e eu já deixei claro que aquela parada ia feder, tá ligado? Fui pra casa com os dedos coçando, peguei a arma o notebook e disparei vários e-mails. O mais hilário é que eles pararam de me responder e eu como sou macho pra caralho, mandei o caso pra um adevogado de porta de cadeia do meu trabalho pra resolver a situação. Se tudo desse errado, alguém ia acabar sem as cuecas no final (não estou me referindo à sexualidade duvidosa do “doutor”).
E eu como gosto de uma pré-configuração do caos, embarquei sem saber se ia conseguir ver o festival, muita gente falou que ia ficar desesperada na minha situação mas eu acho é pouco. Gosto desse tipo de evento porque é a maior probabilidade de reunir confusão & diversão, e eu quero estar no meio. Fui bandear pela capital, já na primeira noite rolou um pagodão bem no calçadão do hotel e da janela eu acompanhava enquanto desfazia a mala. Desci, tomei umas Stellas e logo algumas devassas me questionaram acerca do número do meu quarto. Achei aquilo sensacional mas mesmo com o álcool que eu havia bebido não teve jeito de fazer caridade aquele dia – Padre Quemedo que me perdoe.
Assim que o sol saiu botei o pé na rua: fomos à Liberdade comer-peixe-né, uma boa dica pra quem quer comer muito, pagar menos que o habitual e ainda tomar esporro por entrar na barraca de chinelo. Não podia deixar de ir na Galeria do Rock comprar muambas feitas por escravos bolivianos além de caminhar 38 km até o mercado municipal e comer pão com muita, MUITA mortadela. Não, você sabe que eu ia fazer isso, né? Sou phyno e resolvi comer algo diferente: pastel de carne.
Fiz amizades com garçons, hippies. Agredi um ursinho de pelúcia quando fui ao Habib’s bêbado de madrugada, fiquei no centro da cidade e não me senti ameaçado nem por um momento, eu só tenho coisa boa a destacar desses dias lá. Infelizmente, não me programei corretamente pra ir ao MASP já que o museu não abre nas segundas-feiras e nas terças o acesso é gratuito, fica a dica. Mas caminhei na paulista durante à noite e senti frio na canela. Fomos encontrar uns amigos em pinheiros no Teta bar Jazz que conta com um ambiente muito bacana, propício pra levar a gata (ou nem tão gata assim já que lá é bem na penumbra) e escutar música muito boa, conheci a banda Kaoll lá – jazz de primeira, guitarras descoladas e jam sessions com repertório do Pink Floyd, imperdível.
No dia anterior aos shows fui tentar resgatar os ingressos e acabar com aquela ponta de angústia que me perturbava ainda. Andei mais 94 km do terminal Butantã até o Jockey Club e ainda tive que aguentar piada de palhaço em perna de pau na portaria. Cheguei com a língua no chão mas fui bem recebido pelas funcionárias muito gentis e GATAS. Deus do céu, que parada louca, papito! Consegui recuperar meus ingressos depois de uma breve conversa e ficou acertado que o portador dos meus ingressos originais seria barrado na entrada – melhor impossível. Fui pro hotel tão feliz e aproveitei pra beber umas pra comemorar e quase eu não acordo pra ir aos shows, mas isso eu conto mais tarde.
Efeito Colateral
Publicado; abril 11, 2012 Filed under: Futil | Tags: Antônio Torres, Bukowski, Sex Pistols Leave a comment »Somos formados por um conjunto de fatores externos que exercem influência direta sobre nossos pensamentos, humor, atitudes para com os outros. O jeito que você anda com peito pra cima e punhos cerrados te denuncia em segundos que tu acabou de ver o Junior Cigano dar um sopapo no Velasques e conquistar o título mundial dos pesos pesados, e você só porque também é brasileiro se acha no direito de andar por aí com toda essa marra.
Tenho por experiência e você também (claro, se você tá lendo esse blog tem que concordar comigo) sobre aqueles tristes anos em que vários adolescentes juvenis criados a leite com pera e ovomaltino ficavam andando em bando, com bracelete de arame farpado e franja na cara. Eles eram influenciados pelas músicas de corno e ideias de daqueles vocalistas gordos que passaram a vida toda sofrendo bullying, até porque, gordo não precisa de motivo nenhum pra sofrer discriminação. A gente, classe alfa da sociedade, teve que dar um jeito neles. Hoje, ainda bem, estão dissipados e eu acredito que até já estejam beijando garotas (tomara!). Mas enfim, você é o rótulo do que passa em sua mente ou, se você for pau mandado ou um tremendo psicopata, você transparece aquilo que quer que os outros pensem de você.
Quando eu comecei a destruir folhas de papel com lapiseira, lá pelos anos de 02/03, eu já sofria influências, algumas um pouco pesadas como os Sex Pistols e outras mais socialmente aceitas, como foi o caso do Antônio Torres com seu incrível e apavorante “Um cão uivando para a lua”, que é até hoje meu livro preferido e foi a base pra despertar em mim o desejo de escrever, ou quando isso não era possível, o desejo de pensar. Vou transcrever o primeiro parágrafo desse livro pra vocês:
Passei o dia todo subindo e descendo escada. Preciso me cansar. Que saco. Não, não sou eu quem está louco. São esses médicos incríveis. Sim, os loucos são eles. Eu simplesmente os odeio. Estou te chateando? Estou te chateando, não estou? Desculpa, é por causa dos remédios. Acho que já não tenho sangue nenhum nas veias. Tenho drogas”
Consegue compreender de onde eu tirei a admiração por caveiras, cemitérios e coisas do gênero? Discovery Channel é para os fracos!
É claro que algumas (muitas) vezes eu escrevia também com o propósito de ganhar (muitas) garotas e vez ou outra (sempre) eu conseguia. Imaginem que no ápice da minha formação de caráter eu tendo que escrever pras pessoas e as minhas ideias fervendo a milhão, uma vez ou outra eu deixava escapar uns textos estranhos dentro de envelopes negros. A pessoa em questão achava aquilo muito louco, cogitaram eu estar possuído por algum demônio mas logo percebiam que era só charme ;)
Depois me prendi na obra de Bukowski, foi quando eu aprendi a beber, mas sempre mantive o cabelo curto mesmo. Fui identificando os vários tipos de canalhas e onde eu poderia tirar o maior proveito das loucas histórias do velho safado. Até hoje brindo as nossas conquistas.
Quando me matriculei na aula de guitarra depois de tantos anos parado fui louco atrás da biografia do Slash ou de algum bom apanhado sobre a obra dos Beatles. Recentemente, a biografia do Metallica também me encheu os olhos. Tenho certeza que ler e acompanhar mais de perto a obra desses gigantes me faria bem e me deixaria entusiasmado para estudar música com mais afinco. Precisamos usar as ferramentas ao nosso favor! Isso em parte justifica porque eu gosto tanto de biografias, as pessoas me fascinam e me intriga a forma com que elas chegaram lá. Tenho um hábito quase instantâneo de pesquisar sobre pessoas fantásticas. Quais fatores negativos os desafiaram pra valer a mostrar aquilo que poderiam fazer de melhor, quais amigos revelaram ou destruíram sonhos inteiros. O Tim Burton teve as janelas de seu quarto tampadas com tijolos e concreto quando ele era criança e isso nos faz pensar que o obscuro, os efeitos e personagens bizarros de seus filmes são apenas puro reflexo de sua genialidade criada com as suas experiências.
O meio justifica o homem.
Por isso acho tão essencial ter um moleskine na mochila, outro na escrivaninha ao lado da cama. Porque não se sabe quando terá uma ideia brilhante e eu geralmente as tenho quando estou olhando as ruas pela janela ou quando estou quase adormecendo. Acordar no meio da noite com uma puta coisa maneira na cabeça é bem comum também.
Esse blog, por exemplo, é uma suruba louca de textos estranhos e subjetivos (que quase ninguém entende, by the way), textos em que eu tento ser um pouco engraçado (e não consigo), relatos musicais e algumas satisfações antigas do tempo que eu namorava (argh!). Quando converso com a @livsjedai no twitter não uso pontuação só pra me inteirar no contexto tá ligado. Hoje em dia a gente se esbarra em Safran Foer e para pra pensar demais na vida. Pensa na fricção da gravata no colarinho, lê dezenas de artigos pra entender a crise de 29 e como dar a volta no leão na hora de declarar o imposto de renda. A gente se acostuma demais, como dizia Marina Colasanti, e logo nem percebe que no porta luvas do carro tem um livro de auto ajuda que teu filho te deu de amigo oculto. A gente deixa a memória perder aqueles riffs encantadores, aquelas cinturas finas da época do colégio e passa a decorar nomes científicos de anti-inflamatórios. Porque tem gente que reclama demais de estar velho mas não se permite permanecer jovem e ainda acha brega fazer aula de bateria só porque já passou dos 40. Eu tenho que não é essa imagem carrancuda que você quer passar adiante. Junte as influências positivas para forjar o melhor que se pode ser.
Agora, dá licença, que eu preciso agendar meu salto de asa delta da pedra da Gávea, valeu?!
The Distillers
Publicado; abril 4, 2012 Filed under: Música | Tags: Brody Dalle, The Distillers Leave a comment »Uma, quatro, sete garrafas. Peguei todas e joguei nos ombros como pôde e rumei direto corredor adentro. Lá do final já conseguia ver uma silhueta abrindo mais outra cerveja e servindo três copos, fizemos o brinde (o vigésimo naquela noite) e juramos mais umas boas horas de pura diversão dali em diante. Já era setembro, as horas corriam velozes todos os dias e eu por vezes me lembrava que o Ensino Médio já ficara pra trás, não tinha que enganar mais ninguém além de mim mesmo.
Fomos calçar jeans e coturno, tudo justo e invisível no quarto mal iluminado. Um dos garotos ainda estava vagando em um domínio que agora exibia vídeos diversos, disponibilizados por busca direta, era tudo uma deliciosa novidade. Resolveu se entregar a curiosidade e seguir a sugestão de uma amiga e, ninguém sabe de qual maneira, convenceu todos a acompanhar com ele aqueles quatro minutos e quarenta e nove segundos misteriosos.
Assim que apertamos o play surge o fundo preto datado, um ansioso silêncio. Uma câmera vacilante mostra o que parece ser um hangar todo mal distribuído, lotado, cheio de tênis sujos e com várias histórias pra contar. Alguns moicanos, algumas garotas e muita disposição; no palco apenas um trio: e todo mundo tem certeza que a gente não precisa de muito mais que isso. Começa a música dedilhada, bem distribuída, o foco cai na no rosto da vocalista que deixa o cabelo livre, seu ar indiferente nos dá a impressão que ela não se importa com muita coisa além daquele momento. Ela solta a voz e deixamos o queixo livre, vacilante. Inicia-se um diálogo de mão única.
- Que porra é essa?
- Cara.
- Que foda!
Só uma frase de cada um, ainda bem que não tínhamos o costume de cobrar tanto assim. Ficamos imóveis durante o vídeo, eu só conseguia sentir adrenalina correndo. Uma voz livre acompanhada por distorção e bateria seca, um contrabaixo insistente. Se alguém pudesse transformar em arte tudo o que aqueles garotos estavam sentindo no ápice de seus dezesseis anos o resultado seria idêntico ao que tinha acontecido no estado da Virgínia quatro anos antes. O punk rock é liberdade! Era isso que aquela strato adesivada e aquele calcanhar frenético estavam nos dizendo, é possível ser livre, falar de amor e ainda ter um puta saco roxo. Era pra gente ir pra rua o mostrar ao mundo como estávamos cheios de vida.
Dias mais tarde me entreguei à sede. Conheci todo o material da banda, sua história e suas vertentes. Eu nunca mais seria o mesmo. Tudo por causa de alguns minutos e uma puta curiosidade, por vontade. Você precisa fazer isso pelo menos todas as vezes que for possível, se perder em cidades, em sons e convicção – go with the flow – vale a pena! Eu não desejaria continuar nessa cadeira esperando a vida cair no seu colo com um punhado de migalhas. Eu nunca fui bom em esperar; Brody Dalle também não. Depois de ter uma vida de merda em Melbourne ela se mandou pra LA e conheceu os caras mais foda de cenário alternativo, casou-se com Tim Armstrong (Rancid) e depois com Josh Homme (Queens of Stone Age) com quem vive ainda hoje e tem dois filhos. Definitivamente uma mulher foda que não curtiu esperar a vida ditar as regras.
She’s leaving home
Publicado; março 28, 2012 Filed under: Cotidiano | Tags: daydream, psico Leave a comment »Tomou um susto e com um salto foi a procura do celular que tocava sem parar. Parecia um pesadelo se não fosse pelos raios sol que já cortavam as cortinas sem piedade alguma, ricocheteando no piso ainda limpo pela empregada e cegando quem o quisesse encarar. Devia ter almoçado horas atrás mas nem por isso ele levantaria da cama, suas necessidades básicas estavam sendo ocultado por uma preguiça infernal há semanas.
Achou um absurdo alguém o ligar naquele dia, naquela hora. Afinal, quem nesse mundo tem a coragem de perturbar o sábado alheio? Muita gente tem, pode ter certeza. E pode acreditar que ele teria desfilado todo seu mau humor matinal se não fosse por aquela foto no registro de chamada.
Assim que ele chegou na friendzone cravou os dois pés com concreto até a canela, e por não só marcar presença, tratou de amarrar sua bandeira em uma pá da hélice eólica mais atrevida, aquela que dá mais voltas, só pra ter certeza que ela sempre o notará ali: presente, babaca e trazendo sempre o guardanapo mais macio pra só ela enxugar suas lágrimas de silicone. Johnny levanta-se e coloca uma música enquanto acende um cigarro. Uma pena esse mastro estar longe demais do solo, onde ele não possa esconder de vez em quando pois sua única alternativa é deixar à mostra pra ver se alguém desce de rapel e o puxa pelas braços até seus joelhos saírem daquela lama imunda. Ele não queria estar tão pra baixo, não dessa forma, ele queria sim estar em baixo, afastando com os braços as cortinas que nos impedem de chegar ao céu, mas já faz tempo demais. Ele ainda sustenta o mastro e só espera um palmo de terra firme pra cravar.
Em respeito às várias chamadas perdidas e ao seu cargo de conciliador dos assuntos caseiros ele retorna a ligação. Escuta barulho de carro, soluços e desespero. Ele olha para a parede e não vê o diploma de psicólogo que nunca tirou, essa formação só está evidente no joelho ralado e nas olheiras fundas dos dias de reflexão profunda. Faz o seu papel, calmo, coerente e racional de tantas vezes. Claro e objetivo mas moldado na sensibilidade humana que a situação toda exige. Ao final de alguns bons minutos, desliga. Olha para o celular novamente pra checar mesmo se a ligação foi terminada, não podia ser, algo muito estranho estava acontecendo, nenhum hormônio pulsava nas veias, ainda sentia o peso sobre os seus ombros, aquela sensação marcante de alívio e missão cumprida não estava presente como sempre estivera.
Colocou água quente em sua caneca e mergulhou seu sachê preferido enquanto acendia outro cigarro. Só encerrou seu devaneio quando viu que o chá apresentava coloração de café, depois, claro, de perceber que já fumava apenas filtro por alguns minutos. Largou tudo de lado e telefonou; foi diferente de tudo que havia sido todo aquele tempo, de todos os conselhos reciclados e inflacionados, de toda aquela baboseira de paz e felicidade. Poucas vezes ele sentiu a voz trêmula ao telefone, estava pisando em solo novo, podia sentir a hostilidade do lugar, era escuro e pisar com cuidado era imprescindível. Mas era o único lugar onde o ouro pode reluzir, tem gente que passa muito tempo só refletindo as ideias dos outros mas não consegue nem organizar os seus calçados. Ele andava descalço por entre aqueles galhos, sujando seu pé e reaprendendo a buscar aquilo que realmente importa. Disse tudo o que queria, em quase meia hora de conversa disse por quantos anos ficava acordado escrevendo causos ao seu terapeuta. Contou como quebrar patrimônios públicos aliviava sua tensão, agora era sua vez na linha direta, era ele quem emanava carga dessa chupeta improvisada.
Ao desligar, viu um exemplar de um livro de bolso de Bukowski apoiado na TV. Era só pra isso que aquele aparelho servia, pra apoiar ideias interessantes e intrigantes, nada mais. Era o pedestal da liberdade de expressão. Deixou um sorriso enorme surgir no rosto e quando abriu os braços – já livre de todo aquele peso insuportável – realizou que havia uma dezena de gotas d’água no chão e em suas mãos não havia mais caneca ou cigarro. Seus dedos estavam rígidos segurando um mastro de madeira muito mal acabado. O suor descendo por mais de um metro e meio de cabo; os pés sujos. Parecia que estava carregando aquilo há anos. Não disse nenhuma palavra, a palavra foi jogada ao ar. Respirou fundo enquanto fechava os olhos com sutileza, flexionou com coordenação todos os membros de seu corpo: havia encontrado seu palmo de terra. Estava ansioso pra fazer do mastro carne de si mesmo.
505
Publicado; fevereiro 26, 2012 Filed under: Cotidiano Leave a comment »Esses dias tive uma conversa amiga com um colega de trabalho. Ele tentava me encorajar a escrever um livro.
Esse puto!
Palavras não são coelhos que saltam de cartolas mágicas.
Cada parágrafo tem um preço a combinar. E sou eu quem paga a conta.
[...]
Vou deixar sair e esquecer. Apertar delete várias vezes só pra ver se você sente falta enquanto toma o café. Quantos dias demoram para se sentir a ausência?
Conheço noivo ex-amigo; Compartilho ex-amor. Até aquela palheta que sumiu me faz torcer os lábios. É o sol que queima intenso no mês de Outubro e a poeira acumulada na caixa de correios pela saudade das cartas que não foram escritas.
São havaianas trocadas.
Sou eu entupindo a bomba do chimarrão por nunca ter pisado em Porto Alegre.
São dentes tortos de um banguela – alguns faltando e todos desconexos.
Tulipas
Publicado; janeiro 15, 2012 Filed under: Lovers | Tags: café, felinos, flores, jeans, nuvens, Ray Ban, sol, vodka Leave a comment »Eu lembro que começamos juntos. Estava tímido por tê-la encontrado esperta demais e isso me fazia olhar de canto. Teu objeto sempre produzia sombra, você parecia gostar e confiante corria em direção ao sol e formava sobra em nós.
De todas as garotas meigas você tinha os lábios mais suaves e condensou mistério em suas calças jeans justas apertadas com fones de ouvidos. Costumava jogar a franja de lado para esconder os olhos do sol mas não se importava que estes raios fizessem do tom da tua pele cópia legítima daquela que reflete em meus lençóis. Por isso me justifico dobrando o pescoço, sem pretensão alguma.
Seu olhar manteve-se impenetrável – angular e alinhado. Me fazia mortal. Talvez por isso nunca pude encará-lo e aceitar meus vinte anos de penitência. Por todo esse tempo eu poderia afastar seus cabelos, desalinhar sua leve maquiagem depois de uma noite intensa e te dar vodka pra matar a sede. Eu posso te dar o mundo se você quiser despir sua venda de combate.
Na sua alegria veste preto; Por que manter garrafas de leite ofuscando a lua? Sinto pelas flores que não deixei e pelo pôr-do-sol que viu sozinha.
Vamos pro Brazuca!
Publicado; novembro 3, 2011 Filed under: Viagens | Tags: Rio de Janeiro, Rock in Rio Leave a comment »Rock in Rio de volta ao Brasil depois de dez anos! Que foda, que sonho, que ingressos?! Onde foram parar os malditos ingressos? Puta que pariu, brasileiro só é feliz na base do susto e sacrifício, não podia ser diferente agora. Pois foi exatamente assim que começou minha odisséia por um lugar no maior festival de música do planeta.
A princípio eu queria ir em uns 4 dias do festival mas logo percebi que não seria tão fácil como escolher putas de estradas, as entradas não estavam tão disponíveis assim. Além disso, eu teria que calcular a grana toda do investimento, e pior, tinha que conseguir folga do trabalho e eu já não tinha mais estômago para casar outro de meus amigos ou matar alguém de minha família. Era preciso ter um bom plano em mente.
Mas eu não consegui. Então fui pela lógica: primeiro preciso do ingresso, senão toda a viagem não teria sentido. E foi nesse busca que eu tive a minha maior impotência musical dos últimos anos (sem citar Metallica 2010 que não pude ir por obrigações militares mas isso é outra história). Não havia maneira que estar em todos os shows que eu gostaria por isso tive que fazer um processo de eliminação minucioso e apostar em um único tiro. Escolhi pelo dia 02/10 em que tocariam: Guns N’ Roses – uma das bandas que eu mais odiei na minha adolescência devido ao caráter egocêntrico do sir Axl mas que eu passei a venerar depois da maturidade musical e claro, eu não ia dar chance pra me arrepender depois que a banda acabasse (opiniões à parte, cada um tem o direito de estabelecer essa data com mais achar pertinente, pra mim ela ainda não ocorreu); System Of a Down – lembrança viva das madrugadas mais mothafuckers da minha juventude, seria piração na certa; Evanescence – remete a uma época e a uma pessoa muito especial pra mim, era como se eu fizesse aquilo por ela, exatamente sentindo a mesma empolgação de tantas madrugadas lá por volta de 2004 (sem mencionar o fator Amy Lee); Pitty – bom timbre, nada mal poder ver de perto a segunda baiana mais sexy de todos os tempos; Detonautas Roque Clube – só queria ouvir “Tênis Roque”, se sobrasse algo bom era lucro.
Fui de cabeça nas redes sociais tentando conseguir apenas meu quadrado gramado na cidade do rock (e de olho no dia 01/10 quando tocaria Coldplay, vai que dá…) mas era tão indigesto esse processo que eu fui perdendo as forças. A galera que tinha desistido de ir e estava vendendo a entrada era totalmente sem noção e sem espírito cooperativo algum, preços lá em cima, condições restritas (tinha uma galera que só vendia pra cariocas, outras somente pra paulistas, totalmente lamentável), um medo absurdo de postar via correio e diversas outros obstáculos. Nessa altura o festival já havia começado e faltava uma semana pra dia D. Mas foi como um soldado franzino no meio da selva, me esquivando, passando pelos melhores becos que eu consegui minha stairway to heaven por um preço muito bacana e ficou combinado que faríamos o negócio quando eu chegasse ao Rio. Tinha colocado meu primeiro pé na lama. Animado, fui pesquisar passagens aéreas e precisava de um bom incentivo. Sabe como é, às vezes tu está sem fazer nada mas pela oportunidade você se mete a fazer tal coisa, pode ser um filme na casa da vizinha ou até mesmo a série “O guia do mochileiro das galáxias” de Douglas Adams que tu nem estava muito a fim de ler mas pela bagatela de R$ 19,90 você acaba levando a coleção pra casa (posts patrocinados no futuro quem sabe? HAHA). Pois foi nessa hora que São Congonhas, o santo que intercede pelos viajantes desesperados me deu um belo incentivo e aquela lama já não deixava mais meu tornozelo à mostra, entende?
Combinei entre trancos e barrancos com um amigo sobre uma estadia em Botafogo na casa do primo dele, isso depois que ele viesse do interior de Minas onde ficaria na casa da mãe. Eu sou desligado com planejamentos, o caso dele é umas cinco vezes mais grave que o meu. Lama na canela estágio número três.
Véspera da viagem. Pra quê eu vou gastar três horas fazendo uma mala? Homem é prático. Vou pra balada, gasto umas 4 horas lá, chego em casa e em meia hora eu faço essa mala e vou para o aeroporto. Está tudo escrito, tudo perfeito pra um bom quebra canela na cidade maravilhosa. É claro que eu cheguei bêbado, joguei tudo dentro da mala e fui ao aeroporto soluçando e carregando uma latinha de suco de cevadis pra uma melhor hidratação no trajeto. Coloquei meu MP4 e óculos escuros pra não ouvir ninguém falando mal de mim ou para não afastar aquela comissária assanhadinha com meu olhar “sex on fire“. NICE!
Não lembro das conexões, só me recordo do último trecho quando pedi a uma senhora que me acordasse quando o avião pousasse no Santos Dumont. Que nada, fomos conversando a viagem toda e eu quase consigo um canto na varanda dela, foi por pouco! Quando eu finalmente me dei conta que estava já na aproximação e o sol já se exibia entre os morros e prédios, exclamei: “O Rio de Janeiro está cada vez mais lindo, meu Deus! Sempre me surpreendo”. Ela logo concordou: “Claro, meu filho. Seja bem vindo!”
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Primeiro post descrevendo minha aventura na cidade maravilhosa em busca de rock and roll, para ler os demais posts clique aqui.
Devaneio
Publicado; outubro 27, 2011 Filed under: Cotidiano | Tags: blue sky Leave a comment »Adoro trabalhar de madrugada – fazer café, abaixar a luz e me deixar apenas que meus pensamentos me guiem sem ninguém para me atrapalhar com aquele maldito chat do facebook. Prefiro ir contra a maré, colocar os pés pro alto e não me preocupar se irei me preocupar. Curto sentir frio na pele.
Hoje, particularmente, a noite foi ainda melhor. Muito em parte motivada pela maratona da semana passada em que eu devo ter dormido umas 10 horas em 120 possíveis. Passei o dia tocando guitarra e lendo, deitado na cama e virando as páginas contra o vento forte que vinha da sacada. Adormeci e acordei atrasado mas sem nenhuma pressa, apreciei o ritual de me preparar para o trabalho: fazer a barba, pentear o cabelo de forma a diminuir seu volume e amarrar o coturno na altura certa. Poucas pessoas dão valores à detalhes tão pequenos que tanto nos relaxam.
Após o jantar me preparei para descansar (repousar antes do trabalho, acredite), e fiz quase todo o processo inverso. Relaxei na cama macia e apaguei aos poucos…
Vi aquele uniforme que ainda me dá inveja, os cabelos loiros muito soltos e curtos e algumas bolas de basquete quicando. Sentei na arquibancada pra poder soltar mais uma boa gargalhada sem pisar em falso e flutuar sobre o chão. Cabelos ondulados escondiam as sobrancelhas, aproximando, carregando sempre aqueles dentes exibidos e sinceros, deixando os meus nus. Não sentia calos nas mãos.
Após descer em direção à porta de vidro senti uma leve arrogância me olhar de lado, mas apesar de desafiador aquele longo cabelo louro-caramelo ainda exalava simpatia com leve amargor, já que ela ainda estava distante das passarelas.
Senti saudade dos risos sinceros rodeado de paredes verdes; falta das saias curtas e repicadas esguias ao vento; me perdi longe das manhãs frias e sonolentas, do amor pelas cartas. Me dói ainda ter que andar com relógios caros e pesados, e ser obrigados a encará-los várias vezes por dia.



